Entrevista concedida com exclusividade para o Motor Car
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“Uma mulher de garra”
Por: Silvio Porto - 12/04/2005
Foto: Silvio Porto

A piloto Bia Figueiredo, 20 anos, ficará para a história do automobilismo como a primeira mulher no mundo a vencer uma prova da Fórmula Renault. E sua conquista começou no sábado (09/04) quando participou do treino classificatório para a segunda etapa da Fórmula Renault no Autódromo de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e cravou a pole position. Além de ocupar a primeira posição no grid de largada, no domingo (10/04), Bia cruzou a linha de chegada em primeiro lugar e festejou muito com a equipe Cesário Fórmula.
Nessa entrevista exclusiva à MotorCar, a piloto conta como está se sentindo com essa primeira vitória na categoria. Fala, ainda, sobre a festa na equipe, sobre o peso de vencer e seu objetivo maior que é chegar à Fórmula 1. Bia vai seguir os passos da italiana Lella Lombardi que disputou na F1 pela March Ford em 1975 e em 1976, e pela Brabham Ford no mesmo ano. Seu melhor resultado foi no GP da Espanha quando terminou em sexto lugar. E currículo Bia Figueiredo tem: foi vice-campeã brasileira de kart em 2002, vice-campeã paulista de kart em 2000, vice-campeã da Seletiva Petrobrás em 2003 e vice-campeã da F-3 Sul-Americana Light em 2004.
MotorCar: Como você está se sentindo com a primeira vitória na Fórmula Renault?
Bia Figueiredo: Estou muito feliz. É uma vitória que estava engasgada em mim e na equipe, e conseguimos neste final de semana. Todo o time comemorou muito e estou muito feliz. Foi tudo perfeito neste final de semana.
MotorCar: Lembro que quando você testou um Clio Boticário para a MotorCar conversamos e eu disse que você estava sempre ´batendo na trave´. E quando perguntei o que estava faltando para você vencer, você respondeu que estava tudo certo e que só faltava vencer. As coisas encaixaram-se neste final de semana?
Bia Figueiredo: Encaixaram-se, sim. O mais importante na Fórmula Renault é você conseguir largar mais na frente para tentar disputar as corridas em primeiro lugar. E no ano passado isso não acontecia freqüentemente. Eu sempre largava em quinto, quarto, às vezes terceiro, segundo também, mas nunca chegava na pole, que é tão importante para a corrida para você poder manter a posição. Então acho que neste final de semana conseguir a pole já me deu uma grande tranqüilidade, para trabalhar na corrida e mantendo a minha posição, em vez de ficar correndo atrás da posição, sempre, e como aconteceu no ano passado. Então foi bem mais tranqüilo para mim, deu tudo certo. E nós ganhamos a corrida.
MotorCar: Agora você já quebrou o tabu e provou o gostinho da vitória. Você acha que isso agora pode se tornar mais freqüente em sua carreira?
Bia Figueiredo: Acho que sim. Acho que passei agora para uma nova fase, uma fase mais tranqüila, porque quando você busca uma coisa por tanto tempo e não dá certo, é meio complicado. Tinha um peso nas minhas costas. Acho que com essa vitória ficarei agora mais tranqüila. A equipe e eu estamos mais confiantes e isso vai mostrar um bom desempenho na pista nas próximas etapas. E isso vai se repetir cada vez mais, mas temos que continuar trabalhando, se concentrando, que vai dar tudo certo.
MotorCar: Você sabe que o automobilismo é um mundo dos homens, por isso bem machista. Como foi a sua comemoração no pódio, ao lado de pilotos comemorando a sua vitória?
Bia Figueiredo: O Paulo Salustiano e o Douglas Soares me cumprimentaram. Estavam felizes com os resultados deles e com a minha vitória também. É que muitos pilotos já esperavam minha vitória antes e isso não aconteceu. Eles sabiam que eu e a equipe estávamos merecendo. Foi legal. Todo mundo estava satisfeito, ninguém estava com cara emburrada no pódio e comemoramos juntos.
MotorCar: não teve nenhuma piadinha no pódio?
Bia Figueiredo: piadinha, não! (risos)
MotorCar: Você como a italiana Lella Lombardi, que foi a primeira mulher a pilotar um Fórmula 1, pilotando um March, e ela até andou aqui no Brasil, também entra para a história do automobilismo como a primeira mulher a vencer uma prova da Fórmula Renault no mundo. Isso pesa para você? Dá mais responsabilidade?
Bia Figueiredo: Não, pelo contrário. Na verdade eu não corro para bater a barreira das mulheres. Eu corro porque eu gosto e a vitória vem no lucro. Porque as mulheres que ganham no mundo são uma exceção. Isso não é responsabilidade nenhuma, é uma vitória, e me dá confiança no futuro para ganhar cada vez mais.
MotorCar: Agora você já venceu uma prova no automobilismo, uma prova de Fórmula. Qual seu principal objetivo daqui para a frente?
Bia Figueiredo: Repetir as vitórias e tentar o título na Fórmula Renault.
MotorCar: Você pretende chegar aonde como piloto?
Bia Figueiredo: Primeiro, conquistar o título na Fórmula Renault, mas todo mundo sabe que o meu grande objetivo é a Fórmula 1.
MotorCar: Falando em Fórmula 1, para qual piloto você torce hoje?
Bia Figueiredo: Eu torço pelo Rubinho e pelo Schumacher.
MotorCar: A F1 está com novas regras para 2005 e entre elas a proibição da troca de pneus durante a corrida. Ou seja, o piloto tem que saber administrar o jogo de pneus para não ter problemas no final da corrida. E você como piloto sabe muito bem o que significa judiar dos pneus no começo da prova. Depois dessas 3 corridas, você acha que o Schumacher não está conseguindo administrar os pneus?
Bia Figueiredo: Acho que o problema está nos pneus, mas a Ferrari ainda não acertou seus carros. Acho que o Rubinho terá mais facilidades que o Schumacher. Isto porque já tive oportunidade de correr ao lado do Rubinho e ele tem uma tocada muito técnica. Já o Schumacher é uma coisa mais animal. Ele entra com uma velocidade incrível nas curvas, e isso desgasta muito os pneus. Então ele terá mais dificuldades este ano do que o Rubinho.
MotorCar: Você falou em tocada mais animal. Eu lembro da perseguição dele com Fernando Alonso, quando ele chegou muito forte, travou os pneus e passou reto na curva. A televisão acabou dizendo que ele teve problemas hidráulicos. O que você acha?
Bia Figueiredo: Todo mundo ficou falando que ele passou reto porque errou, mas acho que ele teve problemas no carro mesmo, porque ele saiu e não voltou mais para a pista.



